Às vezes a vontade apela e quer manter tudo do jeito que está. Que as pessoas e as situações fossem estáticas. Que o passado fosse como uma cidade que eu visito. Sempre ali, para quando sentisse saudades, eu pudesse visitar. O duro é que a cidade até existe mas, a situação já passou. E não volta mais. É meio perturbador não conseguir reviver certas coisas novamente. Ainda mais quando envolve tanto minha vida..
Para um saudosista, a areia de uma ampulheta nunca será somente areia. Ela é um "mix" de passado, tempos, pessoas, varandas, miados, bicicletas cor-de-rosa, portões, violões, viagens, beijos, sonhos, amores, notinhas musicais, amigo, agulhas, carrinhos barulhentos, suquinho de caixinha dos supermercados.
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O tempo exige dos saudosista alguns "tchaus" excessivamente doloridos. E eles escrevem no presente o passado.
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Melhor seria nascer, viver e morrer sempre com as mesmas pessoas e situações. Mas também, parece-me que isso poderia enjoar. Não sei.
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Algumas pessoas olham para uma ampulheta e esperam ansiosamente a areia cair para "darem uma virada" em suas vidas. Quando eu olho para ela, fico por algum tempo parado no vazio que a areia deixou. Este vazio é como uma solidão. Não é ausência de pessoas. É a ausência daquilo não volta mais. É como tentar beber a mesma água sempre. Como querer que o rio se mexesse mas sem sair do lugar. É uma cadeia, lamentávelmente.
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Eu não tenho dúvida alguma que saudosistas são pessoas feridas de passado, e não no passado. O passado as fere. O passado bom. E, a finalização deste passado bom pode gerar dor.
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Na mente e nas emoções de um saudoso, a morte de alguém não é somente o sofrimento da perda. Mas, também é a formatação de todo um contexto que envolvia e permeava aquela pessoa.
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Um dia a areia vai acabar. Alguns dos que começaram a jornada comigo, nesta vida, já não estão mais. As mais deliciosas sensações de um grito com meu nome, de uma brincadeira na sala de fotografias, de ganhar um sabonete dos mais caros se encerrou. E é aqui que um carisma te ajuda a permanecer Naquele, no Único que não passa.
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Nisto vejo o quanto meu carisma está me salvando. Dia após dia. Não sei o que seria sem a fidelidade.
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Agora pela manhã O Senhor falou-me: "Aprenda a escutar a voz da areia caindo". Eu escutei e ela falou: "Mesmo se as pessoas morrerem e se esquecerem de você, Eu não me esqueço de ti"; "Eu iniciei esta obra excelente. Calma. Darei o acabamento"; "Visitastes alguns velórios... Chorastes demais neste mundo mas, coragem. Eu venci".
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A areia sabe se comunicar. E as músicas do passado também. "Foi assim comigo e eu chorei, porém confiei e hoje estou aqui".




